Um mar de mentiras. Ou de pós-verdades

“Parece haver um desprezo generalizado dos cidadãos comuns, uma revolta clara contra tudo o que pode ser classificado como elite intelectual e jornalística. Ser um expert num assunto hoje perdeu valor. É muito preocupante”. Esta frase, cunhada pelo jornalista britânico John Carlin, articulista do jornal El País, periódico que hoje é considerado um dos melhores em circulação do planeta, resume a palavra que foi selecionada pela conceituada Oxford Dictionaries como a “palavra do ano” de 2016.

O termo (que a bem da verdade tem seu primeiro registro datando de 1992), se refere a nova forma de política dos dias atuais, marcada pela irrelevância da verdade, pautada na busca da conquista do eleitor por meio da emoção e o uso de bem contadas mentiras. Como exemplos, Carlin cita justamente os três fatos políticos mais importantes deste ano que está chegando ao fim: o Brexit, o não no referendo que analisou o acordo entre o governo da Colômbia e as FARC e a vitória de Donald Trump nas eleições estadunidenses.

Para ele, os três fatos se conectaram pelo uso “desavergonhado” da mentira e a implantação da Cultura do Medo. No caso do Brexit, de que os turcos deixariam seu país para morar na Inglaterra. No da Colômbia, do discurso do ex-presidente Álvaro Uribe de que as FARC ocupariam a presidência do país e que o atual presidente, Juan Manuel Santos, estava patrocinando o acordo por ser comunista e ter a intenção de fazer do país uma “nova Venezuela”. E, por fim, no caso dos Estados Unidos houve a questão dos imigrantes mexicanos, colocados como culpados pelo desemprego e a construção de um muro, assim como veto aos muçulmanos.

Indo mais a fundo no caso de Trump, vemos que a pós-verdade se confirma, já que as frases do presidente eleito se diferem do que o candidato disse. Em menos de uma semana, voltou atrás em ao menos seis promessas. Ou seja: foi dito o que o eleitor queria ouvir para vencer a eleição. Mas, fechadas as urnas, a realidade é bem diferente. Se chegarmos ao Brasil, caso parecido virou “estelionato eleitoral”.

Em tempos de “produção independente” de notícias, como dito na frase que abre este texto, tem prevalecido o discurso raso do ódio, desprovido de sabedoria. Os cidadãos comuns, ao invés de escolher opiniões avalizadas, buscam ouvir o que julgam ser sua própria verdade, ou melhor, buscam a verdade que melhor lhes convém. Prova disso é a quantidade de conteúdo pseudojornalístico que vem sendo compartilhado nas redes sociais que, em sua quase totalidade, são compostos por deslavadas mentiras. E, como uma mentira repetida à exaustão vira uma verdade, acaba por “desmentir” o trabalho de jornalistas que, entre outras coisas, têm a reponsabilidade de checar, confirmar e levantar as informações para passar os fatos corretos aos leitores.

Em meio a este mar de mentiras vemos que, cada vez mais, a sociedade se torna “facebookdependente” ou seja, se concentra e se informa dentro das paredes da rede social. Isso posto, fica a pergunta: qual será a verdade? Aquela que acontece no mundo real ou dentro daquela página? Ou será que isso também é uma pós-verdade?

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