Improvisos mercadológicos em excesso

As pessoas estão abrindo mão dos direitos garantidos pela CLT porque não encontram recolocação. Nem o Uber terá espaço para empregar tantos autônomos

Um fato tem chamado muita atenção a quem anda pelas ruas de Ribeirão Pires: a quantidade de trabalhadores informais e a exacerbada oferta de serviço autônomo (vide as muitas pessoas entregando panfletos de prestadores de serviço).  De alguns meses para cá, explodiu o número de vendedores de rua, os famosos camelôs, cuja variedade de produtos tem se multiplicado avassaladoramente.

Podemos arriscar dizer que  em uma simples caminhada entre a Vila do Doce e a Rodoviária, passando pelo calçadão da Rua do Comércio, é possível identificar vendedores de gêneros alimentícios (churrasquinho, frutas, legumes, salgados, pães, chocolates, temperos, etc.), vestuário (meias, luvas, toucas, saias, cintos e diversos acessórios, como relógios de procedência duvidosa), brinquedos (dos mais barulhentos e luminosos aos silenciosos spiners), jogos (inclusive de azar), cosméticos (óleos, cremes para massagem, pomadas), remédios (ervas para todos os males), e mais uma sortida gama de novos produtos que diariamente inundam esses pouco mais de 200 metros de caminhada.

A explosão no número de trabalhadores informais tem uma explicação, o desemprego. Apesar de os dados recentes do IBGE mostrarem estabilidade no mercado de trabalho, os números ainda assustam. O primeiro trimestre desse ano fechou com uma taxa de desemprego de 13,3%. O emprego com carteira assinada caiu 1,4% e o serviço informal subiu 2,2%, em comparação com o mesmo período do ano passado.

Olhando por outra ótica vemos que no primeiro trimestre deste ano, os números do IBGE apontam o espantoso número de 26,5 milhões de pessoas participantes da chamada subutilização da força de trabalho (informais, desocupados, ou os que trabalham apenas poucas horas – freelancers), o que representa 24,1% da força de trabalho brasileira.

Toda a crise apresenta o mesmo cenário: os mercado se retrai, o empregado é demitido e para continuar a sustentar sua família, apela para a informalidade, porém sem as proteções legais do mercado de trabalho formal. As pessoas estão abrindo mão dos direitos garantidos pela CLT porque não encontram recolocação. Nos últimos 12 meses, 1,8 milhão de postos de trabalho foram fechados em todo o país, em contra partida apenas 409 mil vagas com carteira assinada foram abertas no período. Logo, o resultado não poderia ser diferente, já que cerca de um milhão e meio de novos desempregados ainda estão sem renda fixa de um ano pra cá.

E parece que vamos testemunhando uma piora nesse cenário. Pelo menos é o que acredita Cimar Azeredo, coordenador de trabalho e rendimento do IBGE. O especialista destaca: “O mercado até começa a ganhar emprego informal, mas como a crise é muito forte, nem o emprego informal se sustenta”. Ou seja, pode ser que o crescimento de “ambulantes” venha a cair em breve, não porque conseguiram um novo emprego, mas sim por não conseguirem mais vender. Com essa, nem o Uber terá espaço para empregar tantos autônomos.

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