Alguma coisa está fora da ordem

Há alguns dias, o assunto “Lucro Brasil” que, de tempos em tempos volta à pauta, entrou em discussão mais uma vez com o anúncio, por parte da Sony, de que seu novo console, o Playstation 4, seria vendido no Brasil ao preço de R$ 3.999, contra US$ 399, ou cerca de R$ 900 nos Estados Unidos.

O inconformismo chegou ao ponto de serem veiculadas matérias na grande imprensa mostrando que seria mais barato ir e voltar aos Estados Unidos trazendo o produto na bagagem do que comprá-lo por aqui. Como justificativa pelo custo, velhos vilões: os impostos.

Este breve exemplo vem para referendar uma matéria especial que foi capa na edição de setembro da renomada revista The Economist, cuja capa serviu como um alerta ao país. A imagem remetia a outra capa da mesma publicação, de 2009, que estampava o Cristo Redentor decolando. Agora, a imagem era da estátua falhando ao tentar levantar voo com a pergunta “O Brasil estragou tudo?”

Em um dos textos, a publicação aponta os altos preços praticados no país como um dos culpados para a estagnação da nossa economia, turbinados pelos custos trabalhistas “maiores do que em qualquer outra grande economia” e também os impostos cobrados das pessoas físicas, “que têm de trabalhar quase 10 vezes mais do que a média mundial” para quitá-los. Isso sem falar na péssima condição das estradas (que eleva o frete e, consequentemente o preço final), da alta criminalidade e do crédito caro que, segundo a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) pode representar aumento de até 5% no preço final dos bens manufaturados. Tem também os carros que, graças a “mania” brasileira de financiar de forma que a parcela caiba no bolso, tem seu preço hiperinflacionado e faz com que um Gol “pé-de-bode” feito aqui seja o dobro do preço do mesmo carro, que é fabricado aqui, vendido no México. Ou seja: não há surpresa alguma em ver que nossa economia está cambaleante.

O efeito disso tudo, mais do que ver os brasileiros que têm essa possibilidade deixarem seu dinheiro fora do país (presencialmente ou via Internet), é ter que, infelizmente, concordar com a análise da revista. Vivemos em um país onde o governo oferece descontos em impostos, como o IPI, mas não combate a sonegação como se deve: cobrando um valor justo de todos.

Aliás, mal sabemos o quanto pagamos de impostos em cada produto, já que os índices são variáveis. Enquanto há produtos em que o total de impostos não passa de 15%, em outros este índice beira os 100%. O fato é que não há regra clara, o que dá margem para inúmeras interpretações, como a de que estamos sendo, literalmente, ludibriados pelos governos, sensação essa que aumenta ainda mais quando temos acesso à situação de outros países.

Já passou da hora de se realizar uma reforma tributária e resolver a questão das taxas aqui cobradas, que estão literalmente fora da ordem e cobrar do empresariado para que também repassem esta justiça fiscal aos consumidores. Do contrário, estaremos fadados a viver eternamente no terceiro mundo – ainda que ele tenha um leve verniz de primeiro.

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