A revolta não é contra a passagem, é contra a violência

Os protestos dos últimos dias têm recado claro, o de que existe limite para tudo. Estamos vivendo o efeito colateral do tão propalado “aumento da renda”, da “melhora da condição da população”. Agora, o povo está pensando: bom, o Brasil melhorou, mas porque pagar R$ 3,20 para andar em um ônibus ruim, sendo transportado ao melhor estilo “carne de açougue” e sem poder reclamar?

Esse foi o estopim, mas o cerne da questão gira em torno da violência do dia a dia, não a que chega as páginas de jornais, mas sim aquela invisível e mais dolorida. O brasileiro é violentado pelos bancos que cobram juros extorsivos, pelas empresas de ônibus que cobram uma fortuna por um “lixo” de serviço, pelas concessionárias de telefonia, pelos governos que, a cada dia inventam uma nova taxa, tarifa ou imposto.

Mais do que isso: pelos R$ 12 bilhões em estádios para um campeonato de 25 dias e nada para melhorar o nosso dia a dia, que foi prometido como legado, herança da Copa do Mundo. Por pagar R$ 40 mil em um Gol, “carroça” que, em um país desenvolvido, sequer teria sua venda autorizada por ser inseguro e colocar a vida dos passageiros e motoristas em risco. É evidente: o problema é muito maior do que os R$ 0,20. O povo chegou ao seu limite, a mesma gota d’água o levou às ruas em 1992, de preto, quando o então presidente Fernando Collor pediu para que todos vestissem verde e amarelo, isso quando Internet, Facebook ou algo que o valha eram meras cenas de filmes de ficção científica.

Portanto, é mais do que natural que uma reação aconteça e tenda a ser violenta. Como disse um dos presos no primeiro dia de protestos, é a “fúria da população contra o sistema” o que, diga-se de passagem, por mais ignorante que possa parecer, não deixa de ser um argumento válido. Mas vale lembrar que essa “massa furiosa” não chega a 2% do total de manifestantes e que boa parte deles tentou evitar o pior.

Um exemplo dessa violência que envolve a Copa é o caso das Caxirolas. A empresa The Marketing Store, a mesma que faz as caixinhas dos lanches do McDonalds, subjugando a inteligência do povo brasileiro, as lançaram no mercado sob ideia de que seriam uma espécie de “vuvuzela sulamericana”. Pois então, logo no primeiro jogo os instrumentos (que lembram granadas) foram lançadas pela torcida no gramado da Fonte Nova, na Bahia. Hoje nota-se que eram os primeiros sinais de revolta contida. Prova disso é que em São Paulo, no único ponto de venda (a R$ 29,90) elas encalharam, mostrando que o “bom selvagem” ficou apenas na literatura e que o brasileiro está muito longe desse personagem. Muito pelo contrário, ele sabe que o país só vai mudar se ele reclamar e resolveu protestar. Chegou a hora.

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