Terceira personagem da série especial dos 72 anos iniciou trajetória artística em oficinas culturais no Ouro Fino Paulista e hoje é referência em representatividade, arte-educação e defesa da diversidade no município
Atriz, cantora, performer, produtora cultural e arte-educadora, Alexya Hiromi Manente carrega no nome e na trajetória a força da diversidade. Aos 29 anos, a multiartista criada em Ouro Fino Paulista representa uma geração que encontrou na arte não apenas profissão, mas instrumento de transformação social.
“Ribeirão Pires é o meu porto seguro. É onde eu comecei, onde construí minha base. Se acontecer qualquer coisa, é para cá que eu volto”, afirma.
A história de Alexya com a arte começa em 2014, em oficinas culturais do programa Escola da Família, na periferia de Ouro Fino. Antes mesmo de subir ao palco, já atuava como voluntária, ministrando oficinas de dança e língua japonesa. Pouco depois, estreou no espetáculo “Uni-Duni-Tê” e compreendeu que a arte seria seu caminho definitivo.
Daquelas primeiras experiências até os palcos da Região Metropolitana, a trajetória foi marcada por formação, persistência e protagonismo. Passou pelo Sítio Cultural Alsácia, integrou a Escola Atemporal de Artes e se formou em 2019 com o espetáculo “Cultural – Ritos e Cânticos em Desapercebidas Histórias de Picuinhas”. Atuou no processo de ocupação e restauro do Teatro Municipal Euclides Menato, ajudando a devolver o espaço à população.
“Eu pintei parede, corrimão, ajudei a organizar. Quando vimos o teatro aberto, com a comunidade ocupando aquele espaço que nós reconstruímos, foi emocionante. Mostra que a população tem força”, relembra.
Arte como enfrentamento – Mulher transexual, negra e de origem periférica, Alexya é reconhecida como uma das pessoas trans mais atuantes da cidade. Desde 2018, integra o Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual (COMADS), ampliando o debate sobre direitos, escuta e acolhimento.
Para ela, a arte é uma das principais ferramentas de enfrentamento ao preconceito. “É através da música e do palco que eu denuncio, que eu conto a minha realidade e a de tantas pessoas. A arte é minha forma de comunicação e resistência.”
Seu projeto musical nasce desse compromisso. Com repertório diverso e composições autorais, propõe reflexões sobre identidade, amor, afetos e respeito às diferenças, dialogando com a comunidade LGBTQIA+ e com o público em geral. “Mais do que entreter, eu quero despertar consciência.”
Integrou o Teatro de Torneado, participando de espetáculos como “Do Ensaio para o Baile” e “Incandescente”. Também atuou em produções audiovisuais realizadas no município, como o curta premiado “Engenho de Dentro” e o longa “Filme de Fuga – Peça de Encontro”, fortalecendo a cena cultural local.
Orgulho que nasce da base – Entre tantos momentos marcantes, Alexya destaca dois como símbolos do orgulho de viver em Ribeirão Pires: a primeira vez em que pisou no palco e a oportunidade de se apresentar para o público da própria cidade, reunindo pessoas que acompanharam sua trajetória desde a infância. “Quando eu vi que todo mundo que cresceu comigo estava ali, assistindo, eu pensei: toda essa caminhada me trouxe até aqui. Ribeirão é a minha base.”
Mensagem às novas gerações – Ao falar com crianças e adolescentes LGBTQIA+ da cidade, Alexya é direta: “Não desista. Confie nas pessoas que estão com você. Corra atrás dos seus sonhos. Se você não dá o primeiro passo, o tempo passa e você fica.”
Ela carrega uma frase que resume sua filosofia: se você sonha em mudar o mundo, comece transformando o seu entorno. Construir a própria base, fortalecer a comunidade e ocupar espaços são, para ela, atos de coragem cotidiana.
Série Especial – Ao completar 72 anos, Ribeirão Pires reafirma sua tradição de pluralidade por meio de histórias construídas por sua própria população. Depois da memória preservada nos trilhos e da informação transformada em compromisso, a série Orgulho de Ribeirão Pires destaca agora a potência da arte como instrumento de inclusão.