Orgulho de Ribeirão Pires: Elias, o ferroviário que carrega a história nos trilhos da memória

Primeiro personagem da série especial dos 72 anos relembra o papel da ferrovia na formação da cidade e reforça o privilégio de viver na Estância

“É um privilégio morar aqui. Ribeirão Pires tem clima, natureza, tranquilidade. Viver aqui é motivo de orgulho.” É assim que Elias Pereira da Silva, ferroviário aposentado, resume o sentimento que carrega desde que escolheu a cidade para viver.

Morador de Ribeirão Pires desde dezembro de 1996, Elias trabalhou 36 anos na ferrovia e representa a terceira geração de ferroviários da família. Sua história se confunde com a própria formação do município e ajuda a explicar por que os trilhos foram decisivos para o desenvolvimento local e regional.

A trajetória começa antes mesmo de seu nascimento. O avô migrou de Coimbra, em Minas Gerais, para Paranapiacaba, em 1937, para trabalhar na ferrovia. Anos depois, o pai de Elias deixou Itabaiana, em Sergipe, e também seguiu para a vila ferroviária, onde constituiu família. Em um ambiente em que praticamente todos eram ligados aos trilhos, a profissão passou naturalmente de pai para filho.

A história de Ribeirão Pires está diretamente ligada à inauguração da estrada de ferro, em 16 de fevereiro de 1867. Antes disso, havia apenas um pequeno povoado. Com a chegada da estação, o cenário se transformou: passageiros circulavam entre o interior e o litoral, mercadorias abasteciam o comércio local e o trem dos Correios trazia jornais e correspondências, conectando a população ao restante do Estado.

A ferrovia também impulsionou o crescimento de São Paulo, especialmente com o escoamento da produção cafeeira até o Porto de Santos. Ao redor das estações surgiram armazéns, rampas de embarque, comércios e moradias — estruturas que deram origem ao desenvolvimento urbano.

Elias destaca ainda a riqueza histórica presente na própria arquitetura ferroviária. A estação original de Ribeirão Pires, construída pelos ingleses, utilizou tijolos produzidos na região, mas recebeu estrutura metálica de Glasgow, na Escócia, e telhas vindas de Marselha, na França — um exemplo do pioneirismo e da tecnologia que marcaram a época.

Guardião da memória ferroviária – Antes mesmo de ingressar oficialmente na ferrovia, Elias já atuava como guia em Paranapiacaba e integrou a Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), trabalhando no Museu Funicular e no Museu Castelinho. Ao longo dos anos, construiu um acervo próprio com recortes de jornais, revistas e documentos históricos.

Para ele, preservar a memória é manter viva a identidade da cidade. “A ferrovia foi o elo de desenvolvimento das cidades. Se Ribeirão Pires é o que é hoje, agradece-se muito à própria ferrovia”, afirma.

Nascido em 1970, Elias cresceu em um período de declínio do transporte ferroviário, quando o país passou a priorizar as rodovias. Enquanto Paranapiacaba perdia parte de sua estrutura e movimentação econômica, Ribeirão Pires consolidava-se como polo comercial e de serviços na região.

“Para nós, vir para Ribeirão Pires era o auge. Aqui tinha comércio forte, cinema, movimento. Era referência”, recorda. Hoje, aposentado, Elias segue morando no Jardim Ribeirão Pires.

Série Especial – Ao completar 72 anos de emancipação político-administrativa, Ribeirão Pires celebra não apenas sua história institucional, mas principalmente as pessoas que ajudaram a construir sua identidade.

Elias Pereira da Silva é um desses personagens. Seu orgulho pela cidade ecoa como o som de um trem que atravessa o tempo — lembrando que desenvolvimento, memória e pertencimento caminham juntos nos trilhos da história de Ribeirão Pires.

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