Cidade turística no papel, Ribeirão Pires carece de atrações

“Ribeirão Pires, Estância Turística”. Por quantas e quantas vezes não ouvimos essa frase nos últimos anos. A cidade foi alçada a tal status em 8 de dezembro de 1998, por meio da Lei 10.130, de autoria do deputado estadual Luiz Carlos da Silva e sancionada pelo então governador Mário Covas.

O texto, aprovado sete anos após a lei municipal 3587/1993 ter levado o município a condição de Estância Climática, contém apenas dois artigos, sendo direto no primeiro deles: “Fica transformado em Estância Turística o Município de Ribeirão Pires”, um ato que deveria desencadear uma série de transformações em uma cidade que então pulsava cultura, tinha vida noturna agitada e era repleta de atrações principalmente aos finais de semana. O tempo passou e tudo o que fazia de Ribeirão Pires uma cidade atraente para crianças, jovens e adultos parece ter se perdido no tempo e no espaço, dando lugar a um ambiente que, para alguns, é “incomodantemente pacato” e, para outros, apresenta “baixo potencial turístico”.

Mas, afinal de contas, o que há para um turista fazer em Ribeirão Pires? Esta pergunta é o que tentaremos responder na última reportagem da série “É bom viver aqui, mas poderia ser melhor”.

Apesar de já ter quase 300 anos de vida, considera-se, via de regra, apenas os últimos 59 anos, a fase emancipada da cidade. Neste período, o crescimento foi rápido, mas não o bastante para apagar da lembrança dos mais antigos fatos importantes como os bailes de carnaval no antigo Cine Glória, que fica onde hoje está o Shopping Duaik, por exemplo. Mais recentemente, podemos citar as “baladas” do Paradise, que virou bingo e hoje teve sua área incorporada à das Casas Pernambucanas e também festas em chácaras, “Sabadeiras” e “Domingueiras” do Ribeirão Pires F.C., a agitação no Centro Novo e também a feira de artesanato e as atividades infanto-juvenis da Praça Central, pequenas mostras da grande vocação cultural e de festas de Ribeirão Pires. Todos esses eventos atraíam visitantes a cidade, turistas de curta estadia e, de uma forma ou de outra, acabavam por também atrair divisas, gerar emprego e renda. Com o tempo, tudo isso, infelizmente, acabou e, como resultado, o cenário é praticamente vazio aos finais de semana, justamente quando a chamada “ferveção” deveria acontecer.

Origem – Entre os anos 90 e meados dos anos 2000, Ribeirão Pires teve diversas atrações, atraindo jovens e adultos de toda a região e, inclusive, de São Paulo. A música ao vivo, seja em bares, festivais como o Sexta Básica, em que bandas da cidade se apresentavam no Teatro Euclides Menato em troca de 1kg de alimento não perecível ou ainda em festas diversas era uma dos fatores que tornavam as noites e tardes de sábado e domingo movimentadas na cidade. Os artistas locais tinham intensa produção e bandas como o Grilos & Trilhos, ganharam nome nacionalmente. Fora isso, ainda havia manifestações esportivas. A cidade foi palco, por exemplo, de campeonatos de Motonáutica e Futebol de Salão com transmissão por televisão aberta, o que levou o nome da cidade e, no caso da segunda modalidade, do Ribeirão Pires F.C. para todo o Brasil. O clube, aliás, sediou o Campeonato Brasileiro de Ginástica Rítmica Desportiva, outro evento importantíssimo que trouxe respeito e renome à Pérola da Serra.

Isso sem falar em provas de rali, o Rodeio Amarelinho, que trouxe artistas como Chitãozinho & Xororó e Sandy & Junior nos seus auges e as grandes companhias circenses. Enfim, não faltavam opções de lazer (boa parte delas gratuita) para o Ribeirãopirense e, consequentemente, os visitantes, o que fez o decreto de 1998 ser mais do que justificável. A consolidação da cidade como um grande pólo turístico da Grande São Paulo parecia óbvia, mas o caminho foi inverso.

Consolidação – Uma das grandes atrações eram as festas em chácaras, ansiosamente aguardadas por pessoas de toda a região. As mais renomadas e bem-sucedidas eram a Festa à Fantasia e a Festa Brega, que atraíram atenção da mídia de todo o país, tendo como principal palco a Chácara Nardelli, na Estrada da Varginha. “Eram eventos que uniam as pessoas e chegaram a lançar tendências”, explica Maira Garcia, que, junto a Marcelo Fazio, organizava os eventos. “Eram atividades mais lúdicas, que davam margem a experimentações”, completa. As festas fizeram muito sucesso, atraíram outros organizadores, mas chegaram a um fim. Para ela, o interesse das pessoas mudou e também houve outro fator importante: “com a lei dos bares de Mauá, muitos migraram para Ribeirão Pires, que não se adequou, fortalecendo esse setor e enfraquecendo as festas”. Maira completou afirmando que há espaço para a retomada destes eventos, “desde que haja planejamento e seja adequado ao novo público”. Nos últimos anos, com o Festival do Chocolate, foi construído um novo perfil de evento para a cidade, nas primeiras edições com mais volume e, nas últimas, com atrações diferenciadas, atraindo um perfil mais familiar, ficando mais próximo ao da Festa do Pilar (ainda que esta contenha com atrações mais regionais). Entretanto, a falta de outros eventos no ano e a forma de distribuição dos convites o fizeram mais local e menos turístico.

Deficiências – Para o prefeito Clóvis Volpi, o perfil é do turismo de final de semana, ou “turismo de três dias”, como ele mesmo diz. Mas, para isso, há algumas carências. Na hotelaria, por exemplo, além de alguns motéis, a cidade conta apenas com o Hotel Estância Pilar, que fica na quarta divisão. Mais centralizado, teríamos o Hotel-Escola, no Parque Pérola da Serra, mas com frente para a Rua Dr. Yutaka Ishihara. Visitamos o local, que tem o prédio erguido, fiação montada, mas está literalmente parado. A primeira fase está concluída e, caso fosse devidamente equipada, poderia até ser utilizada, mas a segunda ainda está crua e terá conclusão a cargo da próxima gestão. Voltando a bater nesta tecla, é fato que, além disso, a cidade carece de atrações para que as pessoas saiam de casa. O Parque Milton Marinho de Moraes, recentemente alvo de reportagem, está em péssimo estado de conservação. O Mirante São José está trancado com cadeado e fechado à visitação, além de ter seu acesso “dificultado” por conta de problemas de segurança em um bairro próximo, fazendo com que o visitante tenha que fazer um trajeto longo para chegar ao ponto de entrada. A Pedra do Elefante não oferece segurança a seus visitantes, obrigados a se arriscar para chegar ao local. A Fábrica de Sal está abandonada e o museu municipal está restrito a uma pequena sala no Complexo Ayrton Senna, enquanto sua sede, o relógio do Paço Municipal, fica pronta. Das atrações turísticas, apenas a Vila do Doce, o impecável Jardim Japonês, o museu a céu aberto e o Parque Pérola da Serra (mesmo com alguns equipamentos danificados) estariam aptos a visitação. Muito pouco, convenhamos, para uma cidade turística.

Futuro – Para os próximos anos, o desafio é discutir e reconstruir a identidade turística da cidade. Se a vocação é para o turismo de três dias, todas aquelas atrações que citamos poderiam ser retomadas, além de novas serem criadas. Ribeirão Pires precisa largar a pecha de “cidade-dormitório” para crescer. Até porque ficar “deitada em berço esplêndido” não a levará a lugar algum. As cartas estão à mesa. Resta jogá-las.

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