Volpi: “Ribeirão Pires terá um ano perdido em sua história”

Em entrevista exclusiva ao Mais Notícias, o ex-prefeito e atual secretário-adjunto de Esportes do estado de São Paulo Clóvis Volpi (sem partido) fez uma análise sobre os primeiros 100 dias de governo de seu sucessor, Saulo Benevides e, em uma conversa franca, apontou falhas e não se furtou a fazer uma previsão sombria sobre o que pode acontecer, em sua opinião, ao final destes quatro anos: “corre o risco de passar por incompetente e de ser o pior prefeito da história desta cidade”.

Mais Notícias – Clovis Volpi, como o senhor analisa os 100 primeiros dias de gestão de Saulo Benevides?

Clovis Volpi – Esses 100 dias de governo do prefeito Saulo demonstraram, no meu ponto de vista, uma imaturidade para governar uma cidade que hoje está entre as mais importantes do Estado de São Paulo. Se hoje fizermos uma análise das 50 melhores cidades do Estado, certamente Ribeirão Pires estará neste universo. É uma cidade boa para morar e para viver. Tem problemas como todas as outras, mas tem uma qualidade de vida invejável. É uma cidade que, ao longo do tempo, vem se estruturando para dar ao cidadão uma melhor qualidade de vida. É fundamental que nós tenhamos esse pensamento, a qualidade de vida. Saulo demonstrou imaturidade, iniciou o governo achando que Ribeirão Pires era uma cidade de 40 anos atrás, com os mesmos ranços do passado, querendo destruir o que foi realizado ao longo do tempo por mim e os outros prefeitos, retirar a imagem ao invés de corrigir o que poderia não estar bem e dar continuidade às coisas boas que estavam lá. Ele começou a governar a cidade com o fígado e perdeu tempo pedalando, patinando, buscando criar factóides para iludir as pessoas e tecendo severas críticas. Acho que a cidade e os políticos não têm mais essa visão, esse comportamento. Ele perdeu 100 dias do governo e para recuperá-los, vão os outros nove meses do ano. Acho que Ribeirão Pires terá um ano perdido em sua história. Não se anda atrás de coisas possíveis, continuidade de obras que deixamos faltando 10%, não observar recursos já conveniados. Correram atrás de licitações, de contratos quando, na realidade, dever-se-ia dar continuidade e concluir logo essas obras para depois começar a melhorar as coisas. Ele ficou andando em círculo, no vazio. Para retomar isso, ele precisa se planejar, ver o que é fundamental para a cidade continuar crescendo. Na educação, ele precisa de seis, sete escolas para dar continuidade. Na área cultural, é preciso manutenção dentro do padrão, melhorar o que tem. Continuar o programa de asfalto, de recuperação da economia e não ficar preocupado em destruir a minha imagem, a do meu ex-partido, das pessoas que trabalharam conosco. Ribeirão Pires teve 100 dias de governo Saulo perdido totalmente, que vai prejudicar esse ano. Que a população não espere nada. E, se ele não retomar os princípios de gestor, perde os quatro anos, pois fica muito difícil retomar o crescimento da cidade. Como se tivesse uma casa paralisada. Depois de um ano, ela custa duas vezes mais. Isso prejudicou muito o crescimento de Ribeirão Pires.

MN – Saulo aponta a falta de transição como um dos grandes problemas que teve ao assumir. O que pensa disso?

CV – Eles pediram a transição, nós deixamos, depois ele mudava de secretários a toda hora via imprensa. Não sabíamos mais com quem falar. Não podíamos abrir a Prefeitura para todo mundo, e se essas pessoas não estivessem lá depois? Se não trabalhassem mais na Prefeitura. E tem outra: transição é uma coisa muito simples. As pessoas que estavam nos lugares-chaves eram efetivas e continuam no governo. RH, compras, administrativo, diretor de receita e diretor de despesa, por exemplo, são efetivos, estão todos lá. Só saíram os secretários. Eu não trabalhava com comissionados em alguns setores. Toda a estrutura e conhecimento se manteve lá. Talvez por falta de habilidade, de experiência das pessoas que foram para lá possa ter atrapalhado. Mas ele (Saulo) precisa valorizar estas pessoas que estão lá. Eu diria que o maior erro dele foi tirar todos os benefícios que essas pessoas tinham por exercer cargos de chefia. Elas então se retraíram. O culpado agora sou eu? O culpado é ele, é quem dá conselhos para ele. Falta um bom conselheiro porque de conselhos ruins, ele está recebendo até demais. Você precisa de conselheiros que tenham cérebro.

MN – E quanto aos projetos que Saulo tem apresentado, como o teleférico e a cidade encantada, por exemplo? O que acha?

CV – Para com isso! O que ele tem que fazer com esse dinheiro do Dade (Departamento para Auxílio ao Desenvolvimento das Estâncias) e iluminar os trevos da SP-31 (Rodovia Índio Tibiriçá). São sete, oito trevos, é questão de segurança. O Dade vai absorver isso se você fizer um bom projeto e disser que o cidadão que vem para cá a noite precisa de segurança para entrar e sair daqui. Consegui iluminar três trevos, mas existem dez. Não consegui iluminar todos. Uma estrada mais segura significa o quê? Turismo! Outra coisa: foram deixados recursos no banco para concluir o Hotel-Escola. O Dade permitiria comprar mobiliários para o Hotel, como camas e criados-mudos, o que amortiza o custo. Mas apareceram os vendedores de fumaça, sugerindo obras mirabolantes, impossíveis de serem realizadas com esse recurso e com manutenção alta. Um exemplo: o teleférico, que está no Plano de Governo. Você precisaria desapropriar o imóvel onde vão ter as torres de interligação, precisa fazer a manutenção. Além disso, é deficitário, você precisa ter um recurso do orçamento depois, a Prefeitura vai ter que participar para cobrir os custos das cadeiras vazias. Sugeriram um chafariz na esquina da Avenida Rotary com a Humberto de Campos. Aquilo é cota 157 da Emae, é área de enchente. A Emae tem que passar a escritura. Não se consegue o dinheiro porque a Prefeitura não é dona do terreno. A Cidade Encantada precisa de desapropriação de terreno. Quanto custa hoje em Ribeirão Pires para desapropriar uma área de 10, 15 mil metros quadrados? Onde tem essa área? Serão quatro, cinco milhões de reais só em desapropriações. E o túnel? Como fazer? A idéia é maravilhosa, mas não é realizável porque há lençóis freáticos e gasodutos, que elevam o preço. Você também tem que desapropriar áreas do entorno, como no Metrô, há faixa de segurança. A verdade é que não dizem isso a ele. A maior brincadeira foi a cobertura do Centro. Tem que se fazer uma fiação subterrânea na Rua do Comércio. Quanto custa isso? E a entrada do Corpo de Bombeiros, como fica? O problema do Saulo é o seguinte: ele não estava e não está preparado para ser prefeito. Cada um que chega e dá uma idéia, ele diz que vai fazer. Mas, e o custo periférico, o mais alto? Ninguém diz. Ele poderia fazer as calçadas, padronizá-las, algo que não consegui fazer. Seria uma bela marca para o governo dele e o dinheiro do Dade permite. Há coisas boas, simples e que precisam ser feitas. Essas maluquices que um monte de gênios que vendem fumaça apresentaram para ele o farão perder o ano. E, se ele não souber lidar, perde os quatro anos de gestão.

MN – O senhor se mostrou não favorável a uma alça do Rodoanel na cidade e esse foi justamente um dos pedidos do seu sucessor que pode ser atendido. O que pensa disso?

CV – Eu não sou contra, sou a favor da alça do Rodoanel. Mas vamos analisar: todo o povo do Itapeva, de Mauá, que precisar pegá-lo, vai fazê-lo em Mauá ou em Ribeirão? Em Ribeirão. Então, você tem que ter Coronel Oliveira Lima, Estrada de São Caetaninho e SP-122 (Rodovia Dep. Antônio Adib Chammas, que vai até Paranapiacaba) duplicadas. O pessoal do sul de Suzano, uma 100.000 pessoas, vai pegar o Rodoanel em Poá ou em Ribeirão? Em Ribeirão. Então, tem que duplicar a SP-31. A cidade não suporta o aumento do trânsito. E os caminhões que vêm ao EADI, o Porto Seco de Palmeiras? Vão descer aonde? Em Ribeirão, que vai ficar com todo o problema. Sou a favor da alça, desde que se façam as obras de infra-estrutura, senão a cidade vai morrer, vai sofrer. O Saulo não sabe o que significa a expressão “problema periférico”. Não tem como fazer, vai sufocar a cidade. Basta ver Mauá as 17h. Aqui vai ter o problema o dia inteiro. Temos que ficar sem a alça e transformar a SP-31 em uma via urbana para nós, fazer o trânsito de caminhões entrar em Poá. Deixar a SP vazia. Aí sim vai ficar bom, vamos diminuir o trânsito em 70%. Todo o transito que vem para pegar a Anchieta vai para Poá e teremos uma rodovia só para nós. Alguém virou e disse a ele para fazer a alça em troca de dividendos políticos porque eu era contrário. Eu não sou contrário, é que não sou bobo. Depois que faz, o cara sofre. Sou a favor desde que se equacione os problemas. E quando asfaltar a SP-43 (Ouro Fino a Mogi-Bertioga)? Todo mundo vai usar a SP-31 e a SP-122 para ir ao Litoral Norte. Como vamos ficar? Esses problemas ele e quem está do lado dele não conhece.

MN – Qual é a grande falha de Saulo Benevides?

CV – O grande erro é ele não estar preparado e por isso corre o risco de passar por incompetente e de ser o pior prefeito da história desta cidade, como gestor. E digo mais: para quem disse tudo isso sobre mim, vai ser um estrago irreparável para o resto da carreira política.

MN – O senhor tem 40 anos de carreira política e passou por várias turbulências. Como governar uma cidade como Ribeirão Pires em tempos de crise econômica?

CV – Em uma cidade como a nossa, que não tem superávit e trabalha sempre no limite, é preciso ter relacionamento com os poderes, do estado e da união. Se não for bem entrosado, não tiver proteção financeira, será um governo fadado ao fracasso. Deve-se fazer a manutenção da cidade com verba do tesouro municipal e investimentos com recursos dos governos estadual e federal. Para isso, existe um limite. Se tiver bom relacionamento, o dinheiro cresce, senão não existe. O recurso para investimentos não chega a 2%. O custeio de uma máquina como a nossa é muito grande. Temos 120 mil habitantes com 3.500 funcionários, o que está dentro do padrão médio. Mas há um problema sério, 76% de área preservada, o que gera um problema sério. Uma obra aqui custa 20, 30% mais. O solo é ruim, demanda mais cuidados. Em cidades planas do interior, se faz três centímetros de asfalto e dura dez anos. Aqui, dura três. Temos um custo diferente de outras cidades. Sem relacionamentos, não há investimentos que, por sua vez, devem ser concentrados na infraestrutura. Enquanto ela não estiver consolidada, não adianta fazer outra coisa.

MN – Há possibilidade de o senhor rever a posição e apoiar Saulo?

CV – Não, porque eu não acredito em um bom governo do Saulo. Acredito em um governo ruim. Vou além: um governo medíocre, por causa do comportamento pessoal dele. A história mundial da política mostra que este tipo de comportamento leva a um governo medíocre. Quem governa com vingança abre duas covas. Sempre. Acho que ele tem que ter comportamento contrário ao meu e eu ao dele. Isso é bom para a cidade, que pode fazer experiências a cada quatro anos.

MN – Por tudo isso, o senhor cogita uma volta a política?

CV – Não sou candidato a deputado e não tenho pretensão de ser candidato a prefeito. Quero criar novos políticos na cidade que possam ser bons prefeitos na nossa ala. Temos grupos distintos. Existem inclusive outros grupos políticos na cidade. Mas temos que ter consciência de que temos um excelente grupo político. Mas, temos consciência de que não devemos nos aliar a quem nós entendemos ser muito menor do que a gente. Não vamos fazer isso. Eu pessoalmente gostaria que nenhum daqueles que tem o pensamento de ser melhor se alie ao pior. Se você faz isso, vai para o fundo. Não faço oposição agressiva, só mostro as pedras que me foram atiradas, que guardei e estou devolvendo aos poucos. Como me atiraram muitas, ainda tenho muitas a serem devolvidas. Então não tenho porque me aliar a ele. Tenho que fazer papel de oposição e ele tem que fazer o mesmo papel quando sair de lá. É nisso que a cidade vai ganhar, em ter grupos de oposição porque assim um vai querer fazer melhor que o outro. Agora, tem que fazer melhor. Se ele for melhor do que eu, não tem razão para eu voltar. Tudo caminha para ser muito ruim, mas não tenho essa intenção (de voltar). Estou iniciando uma nova trajetória que complementa minha carreira. Se disser que nunca sonhei em ser secretário de Estado, mesmo adjunto, é mentira. Eu vejo, quarenta anos depois, um sonho ser realizado, que é o de trabalhar junto ao governo, deixando claro que minha postura como secretário independe de ser oposição. Se puder trazer serviços gratuitos do Estado com gestão da prefeitura, traremos. Não sou oposição à cidade.

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