A torcida que tem um time

Por Marcelo Rubens Paiva

Escritor, roteirista; mas, acima de tudo, Corintiano.

Se todos diziam ser impossível, a gente sabia, a gente avisava: “É nada, aqui é Corinthians.” Não existe o impraticável, existe o Corinthians. E a fé que empurra, fé que dá forças, fé que defende, fé que exige “sai, zica!”. Fé que faz cantar o jogo todo, torcer sem parar, fé que acredita no difícil, que tem fé no improvável, que acredita no desacreditado, que manda a bola pro gol.

Corinthians não é apenas um time, é uma torcida, é uma Nação. Começou assim. E assim sempre será. Corinthians não é a quarta, terceira, segunda força, ela é uma nacionalidade, um espírito, um jeito de ser, uma alma alvinegra que pulsa num coração sofredor. Ser corintiano é eterno, infinito, horizontal e vertical, plano e redondo, ser corintiano é ser completo. Ser corintiano é a minha identidade, é o que me define: “Aqui é Corinthians!” É minha família, meu planeta, meu país, um adjetivo.

Ser corintiano é ser reconhecido com um “Vai Corinthians!”, é encontrar aliados, gritar na rua para um amigo “Aqui é Corinthians!”, é ouvir te chamarem “E aí, Corinthians?”, é se despedir com o slogan “Vai Corinthians!”. Corinthians não tem torcedores, tem seguidores. É uma Nação e uma religião, uma ética, uma fé. Tem corintiano em toda parte, no lugar mais inusitado, do outro lado do mundo. É o time do povo. É de sofredor. Sou corintiano. Graças a Deus.

Corintiano não viaja para torcer, invade, torce o jogo todo, incentiva sem parar, prometendo: “Eu nunca vou te abandonar!” Corintiano não para, não para, não para. Vibra. Abençoa. Vira apóstolo. A fé não apenas nos move, nos faz invadir. São Jorge me ensinou a nunca desistir, a lutar até o fim. Que Deus me perdoe, minha fé tem mais outro dono. E se deixarem, no meu casamento toca o hino do Corinthians. E quando perco as esperanças, alguém me grita “Vai Corinthians!” e volto a acreditar no sonho mais irrealizável.

Se me desafiam, consigo o que quero, grito batendo na veia: “Aqui é Corinthians!” Quando um místico dá um passe, um padre reza, um cantor termina seu solo e o silêncio se faz, é quando me seguro para não gritar “Vai Corinthians!” Se foram seis dias da Criação, veio a luz, o vento e o homem, pode contar, Deus não descansou no sétimo, criou o Corinthians; a paixão completa, a devoção inexplicável, a fé absoluta, a idolatria divina, o amor supremo.

Dizem que o Corinthians não é um time que tem uma torcida, é uma torcida que tem um time. O time existe e vive para sua torcida, para fazê-la feliz. Ser corintiano é ser preto e ser branco, ser preto no branco, branco no preto, ser tudo ao mesmo tempo, é vibrar com o gol e com o chutão, não faz questão de seu time jogar bonito e ainda se orgulha do sofrimento que ele te traz.

Ser Corinthians é fazer de onde o Corinthians joga sua casa. Onde tiver uma arquibancada, a gente lota vestindo preto e branco. Seja no nobre bairro do Pacaembu, seja no meio do povão de Itaquera. É pegar a Dutra como se fosse a Radial, é fazer de Tóquio uma grande favela.

Ser Corinthians é um movimento social, é unir na arquibancada o doutor e o empregado, é sair do estádio e ir lutar por democracia no Anhangabaú, é mostrar e brigar para que o futebol seja sempre do povo. Não sei quando me tornei corintiano, não sei se nasci corintiano, ou se o Corinthians nasceu em mim. Antes de ser corintiano eu não existia.

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