Onde estão nossos poetas?

Por Capitão José Anilto

Recentemente perdemos pessoa ilustre de Ribeirão Pires, o Dr. Augusto dos Reis. Além de extraordinária figura humana, era também um poeta. Em seu livro Aguenta Gabriela!, mostrou sua refinada sensibilidade a problemas sociais e, em especial, ao rumo danoso que nossa frágil política democrática estava tomando. Ele anteriormente havia semeado e colhido “flores ao longo do caminho”, coletânea de sonetos e poemas escritos ao longo de sua vida. No poema de apresentação assim se expressa: “Apresento meus versos, ajuntados ao longo do caminho desta vida; – São palavras, – São beijos atirados por quem soube viver a humana vida.”

Dr. Reis era poeta de espírito sagaz, crítico, mas acima de tudo satisfeito com sua vida. As “Flores” refletem amor e otimismo. Mesmo depois de perder a voz, não se abateu: “Mas, Deus sabe o que faz, pois, com certeza, me preparou, talvez uma surpresa: – Que eu trocasse o falar pelo escrever. Obrigado Senhor! Eu compreendi que ao perder a fala – nada perdi porque posso, escrevendo, o Bem fazer.”

Recordei o Dr. Reis neste texto, pois foi um dos poetas da cidade. Relembro também Américo Del Corto, autor do Hino de Ribeirão. Dele tenho Reminiscências – Ribeirão Pires que vi e vivi, coletânea de crônicas da cidade. Diz ele no livro: “A gente nasce, vai crescendo e, muito cedo ainda, começa a aprender, ver e ouvir muitas coisas. Muitas mesmo, as quais, mais adiante no tempo, as recordamos, quando então, passam a ser consideradas, lendas umas, reminiscências outras”. E assim ele traz um pouco de sua memória para a memória de Ribeirão.

Relembrei essas duas personalidades para reforçar a pergunta do título: Onde estão nossos poetas? E onde estão nossos cronistas, contistas romancistas? Infelizmente, a cidade tem fraco apoio à arte literária. Uns poucos escritores emergem do mar de esquecimento por fatores diversos à arte da escrita: Uns por sua influência política, outros por sua presença humana, outros ainda por sua militância. Mas a cidade não abre espaço para a literatura pura. Mesmo tendo vários jornais em circulação, pouco ou nada vemos reservado à arte da escrita. Apesar de termos Secretaria da Cultura, não temos eventos literários que atraiam os autores anônimos que certamente existem em nossa cidade.

Onde estão vocês, poetas, escritores? Apresentem-se! Exijam seu espaço, juntem-se, promovam-se. Precisamos mobilizar a cultura literária em Ribeirão, pois a literatura reflete nossas experiências existenciais, sociais e culturais e, com isso, perpetua-se a memória comunitária. Quem lê amplia seus horizontes. Quem escreve, além disso, contribui para ampliar os horizontes das pessoas ao seu redor. Quem incentiva a escrita acaba contribuindo para o progresso geral da comunidade. Nossos jovens hoje estão carentes de exemplos, de incentivos. Necessitam romper a barreira da estagnação intelectual para, verdadeiramente, poderem adquirir pensamento crítico real. A produção escrita, seja poesia, crônicas, contos, romances, seja baseada em realidade ou ficção, tem o dom de promover isto.

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