O dia em que a Terra parou

Há uma conhecida canção de Raul Seixas com o mesmo nome que batiza este artigo que fala de um dia em que o eu poético teve um sonho com todos os habitantes da Terra resolvendo não sair de casa, parando todos os serviços e, consequentemente a vida humana, uma canção que faz uma releitura com o uso da licença poética do filme clássico de 1951 (batizado da mesma forma) que reporta uma invasão alienígena a Terra.

Esta semana, por alguns minutos, a Terra parou após o grave acidente aéreo que vitimou 76 pessoas na Colômbia, entre elas, quase toda a delegação da Chapecoense, pequeno time da cidade de Chapecó (SC) que, pela primeira vez em sua história, chegava a decisão de uma competição internacional, a Copa Sulamericana.

O fato ocorreu na madrugada brasileira e pegou a todos de surpresa. Chocante por todo o contexto de envolver um clube de futebol, esporte que mexe com os corações de 100% da população mundial (afinal, quem não o admira faz questão de dizer para todos que é uma pessoa que não o acompanha) e também um grupo de atletas que estava unido por um sonho que se desfez em segundos ante a força da natureza e do imponderável.

Não tardaram as manifestações de solidariedade advindas de todos os cantos, até mesmo de rivais. Clubes e atletas de todo o planeta, assim como pessoas comuns, manifestaram seu pesar pelo ocorrido. Até mesmo o Atlético Nacional, equipe colombiana que seria a rival na grande final, abriu mão do título (que, pela regra pura e simples teria direito já que não tinha adversário por motivos óbvios) em prol do espírito esportivo e da lembrança a esses atletas que, em sua maioria, eram lutadores em prol de um futuro melhor. A Terra parou. Mas por um propósito.

Mais uma vez, o futebol mostrou o porquê de despertar tantas paixões. O porquê de ser muito mais do que um esporte. Mostrou que, mesmo em uma época tão individualista, ainda é capaz de fazer, ao menos por um instante, a sociedade parar de pensar no próprio umbigo, pare de pensar em si e mostrar que ainda é possível viver em sociedade, que é possível não matar porque o próximo usa uma camisa de cor diferente, que é possível não desfazer parcerias de anos porque a orientação política do amigo é distinta. Hoje, como anteontem, nada disso importava, mas sim a dor de famílias que se despedaçaram, dos sonhos que terminaram, dos pais que perderam seus filhos, dos torcedores que perderam seus ídolos, do país que parou de ser mesquinho e chorou por uma causa maior.

Em alguns dias, será apenas uma triste página virada da história, como foram os acidentes que levaram o time do Brasil de Pelotas, os Mamonas Assassinas, Buddy Holly, Richie Valens e Big Bopper ou as vítimas dos aviões da TAM. Mas, para a maioria das pessoas, também vai ficar no coração o sentimento de que a vida pode sem melhor sem que seja preciso uma tragédia para despertá-las. Definitivamente, não é só futebol. É algo muito maior.

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