O Carnaval do João Gaveta

João Gaveta era um sócio folclórico da Sociedade Esportiva Palmeiras, um dos quatro grandes de São Paulo, que tem em seu currículo muitos serviços prestados ao clube do qual era torcedor fanático.

Senhor de idade, deficiente físico e, dizem, já com sinais de demência, era figurinha carimbada nos jogos de basquete do Palestra, à época uma potência na modalidade e praticamente imbatível especialmente em seu ginásio, hoje demolido para as obras da nova Arena.

Este “praticamente”, muitas vezes foi resolvido graças as ações de nosso personagem. Em um tempo em que tudo era feito na mão, toda a pontuação da partida era registrada em súmulas que ficavam na mesa dos delegados da Federação Paulista de Basquetebol que, por sinal, não tinham cópias. Quando o time da casa estava perdendo lá ia o velho Gaveta, com conivência da segurança e sem despertar suspeitas por sua condição, sorrateiramente, rasgar os documentos sem dó. Confusão armada, missão cumprida: sem súmula, sem jogo. Resultado: nova partida e nova chance para reverter a derrota iminente.

Em quantas e quantas oportunidades não vimos a mesma história, de pessoas que tentam “rasgar o regulamento” ou até mesmo rir da constituição ou, em um âmbito maior, da própria população? Ou ainda aqueles que tentam manipular a realidade em prol de uma causa menor que, a rigor, só favoreceriam a eles mesmos? Ou pior, quem apele para o panis et circencis, o famoso pão e circo, em português claro, para camuflar uma realidade que não é tão favorável?

Acompanhamos isso no Carnaval de São Paulo, quando um integrante da Império da Casa Verde seguiu a “Lei de João Gaveta” a risca, rasgando as notas do último critério avaliado e deixando a disputa sem vencedores, uma prova de que o valor da competição está maior que o da festa, em uma clara – e temerária – inversão de valores.

Como a vida imita a arte, aqui e ali surgem comentários a respeito de tentativas de se maquiar a realidade e, vejam só, até mesmo tentar uma espécie de censura prévia velada em veículos de comunicação. A esses, um recado: como o DOI-CODI já fechou há tempos, é melhor tirar o cavalinho da chuva. Estaremos sempre fazendo nossa função como olhos e ouvidos da sociedade e, certamente, não deixando que algum João Gaveta da vida contamine o futuro do nosso país – e, mais especificamente de nossa cidade. Até o fim.

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