Marina Silva e a arte do tiro no pé

Dentre as milhares de mudanças partidárias no Brasil, a que mais chamou a atenção, sem sombra de dúvidas, foi a ida da ex-senadora Marina Silva para o PSB, partido do governador de Pernambuco Eduardo Campos, visto como “terceira via” para a corrida eleitoral brasileira.

Nos últimos meses, Marina ganhou notoriedade ao pregar a criação de um novo partido, a Rede Sustentabilidade, que, de acordo com sua elaborada estratégia de marketing, seria diferente de todas as outras legendas existentes no país. Para isso, amealhou uma série de simpatizantes e “pré-filiados” que lutaram para arrecadar as quase 500 mil assinaturas necessárias em ao menos nove estados diferentes para que o Tribunal Superior Eleitoral pudesse homologar a criação do que seria o 33º partido do Brasil.

Apesar de ter ganho a simpatia de parte do eleitorado (cerca de 18%, índice similar ao de sua votação nas Eleições 2010), a Rede ficou devendo cerca de 50 mil assinaturas, todas elas rejeitadas pelos cartórios eleitorais. Sem saída, restou a Marina Silva ignorar a fala de que os partidos existentes não prestavam ao se filiar a um deles, o PSB que tenta emplacar o pernambucano como candidato, mas encontra resistência nas regiões Sul, Sudeste e Norte do Brasil.

A medida, vista em um primeiro momento como fortalecimento ante a bipolaridade partidária brasileira, ainda não pôde ser refletida no eleitorado, até porque ainda não foram realizadas as primeiras pesquisas eleitorais sob o novo cenário mas já trouxe questionamentos. O principal deles era se os “sonháticos”, nome que Marina Silva usou para batizar seus apoiadores, não seriam mero instrumento catalisador do projeto pessoal da ex-senadora em se tornar presidente da república. Afinal, se nenhum partido servia, porque o PSB serve agora? E mais: no ano que vem, se o partido for aprovado, ela dará as costas para a nova casa?

Além disso, Marina Silva agora adota um discurso idêntico aos da frágil oposição brasileira, que é o do antipetismo sem mostra de um projeto diferente para o Brasil, argumento que o PSDB tem usado há mais de uma década sem sucesso. Ou seja: as diferenças tão apregoadas por ela mesma durante a campanha para a montagem da Rede talvez não sejam tão diferentes assim, ainda mais ao lembrarmos que ambos fizeram parte do governo Lula, Campos como ministro do Planejamento e Marina como ministra do Meio-Ambiente. O próprio PSB tinha ministérios sob sua gestão até 15 dias atrás.

Além disso, Eduardo Campos está longe de ser considerado “ilibado”. Muito pelo contrário, já teve seu nome envolvido em escândalos como o dos precatórios, quando era secretário da Fazenda de seu estado durante uma das gestões de seu avô, Miguel Arraes, e, atualmente, está sendo investigado por superfaturamento e favorecimento a uma empresa parceira em contratos da Educação.

Desta feita, não é exagero dizer que fora a questão da legenda e dos titulares de pasta, haverá pouca (ou nenhuma) diferença em relação ao governo que aí está, enterrando de vez o discurso de algo diferente em relação ao status quo atual. Teria Marina Silva dado um tiro no pé que ricocheteou no peito do sonho da Rede? Só o tempo dirá.

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