E o “Lucro Brasil” ataca novamente

Nesta semana, veio a público uma notícia que deixou a todos estarrecidos: a de que os juros dos cartões de crédito pagos pelo brasileiro são os maiores da América Latina, batendo de longe os outros países da região, uma constatação numérica do elevado custo de vida do brasileiro.

O estudo, divulgado pela Proteste – Associação de Consumidores na última terça, mostra que os bancos/operadoras simplesmente ignoram as baixas nas taxas de juros promovidas tanto na taxa básica de juros, a Selic (que já esteve em 12% ao ano e hoje está em 8%) quanto nas próprias instituições financeiras que tem promovido uma espécie de “guerra” em busca de novos clientes.

O cenário beira o absurdo ao coletarmos os números. A média anual da taxa de juros do Cartão de Crédito no Brasil está em 323,14%. Na vizinha Argentina, cuja taxa básica de juros está em 11,15%, ela gira em já absurdos 50% ao ano. Para piorar a situação, os “hermanos” nem estão na segunda posição deste ranking. Este lugar é do Peru, que cobra 55% anuais…

O resultado desta triste sentença é que o cartão (e o crédito rotativo) se tornou um dos grandes vilões do crescente endividamento das famílias brasileiras. Desta forma, caso não seja feito o pagamento integral da fatura, os juros irão fazer com que a dívida vire uma bola de neve do tamanho de 12,77% de juros, em média, ao mês, infinitamente superior ao rendimento das melhores ações do mercado. Traduzindo: uma fatura de R$ 5 mil, demoraria 58 meses (quase cinco anos) para ser quitada com o pagamento de 15% do valor total ao mês ao valor de R$ 11,5 mil.

O exemplo dos cartões se aplica também a outros produtos, como, por exemplo, os carros. Peguemos como exemplo o Honda City, fabricado no Brasil e vendido no México. Aqui, ele custa cerca de R$ 56 mil em sua versão de entrada, a mais básica. No México, todas as versões vêm com itens que são opcionais por aqui, como o airbag duplo e o ar condicionado, além dos vidros, travas e retrovisores elétricos e custa o equivalente a R$ 25.800 – e com lucro.

A explicação lógica para isso, de fato, não há. Aqui e ali se justificam tais disparidades com a “economia de mercado”, ou seja: o preço é cobrado porque o povo paga e, se isso não ocorresse a situação poderia mudar. Há quem diga também que é culpa dos tributos, velhos vilões apelidados “Custo Brasil”, mas se pegarmos, por exemplo, a Austrália, onde as taxas são elevadíssimas, os carros seriam mais caros que o México, mas ainda assim, seriam cerca de 20% a 30% mais baratos do que aqui.

Essa situação, uma das responsáveis pelos exorbitantes lucros dos bancos nos últimos anos, recebeu o “carinhoso” apelido de “Lucro Brasil” por parte dos consumidores, insatisfeitos com o verdadeiro assalto a seus bolsos promovidos pelas financeiras que, ano após ano, batem recordes de lucros no país. Para o futuro próximo, já há a preocupação com o endividamento das famílias, que está extrapolando a capacidade de pagamento. Será que não chegou a hora de se rever esta política? Com a palavra, o empresariado.

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