A volta da baderna e a mensagem das ruas

De tempos em tempos, algumas manifestações chamam a atenção da mídia. Se no ano passado foram os protestos que, mesmo sem uma pauta definida, levaram milhões de pessoas às ruas, este ano, a chamada “bola da vez” são os “rolezinhos”, versão verde-amarela dos “flashmobs”, mobilizações-relâmpago convocadas via redes sociais na Europa e na América do Norte.

Na versão brasileira, à exemplo do que tem acontecido há algum tempo nos EUA, os alvos são os shopping-centers, os “templos do consumo” e personificação dos anseios de milhões de pessoas das classes mais baixas em ter produtos de melhor qualidade – e mais caros – a seu dispor. E, exatamente, por isso, foi instaurado um clima de terror nestes locais, já que houve registros de tumultos e de saques, com uma enxurrada de liminares garantindo o direito até mesmo de fazer uma espécie de “triagem”, impedindo a entrada de “elementos suspeitos” (ou de “gente diferenciada”, como já foi dito em outros tempos quando se planejou a construção de uma estação de Metrô em Higienópolis) nos locais.

Independente da explicação de sociólogos que tentaram colocar os rolezinhos como “a voz dos oprimidos pelo sistema”, vale uma lembrança: as ações e reações não são lá muito diferentes das vistas nos protestos de 2013. Começando por lojas (neste caso também as de rua) fechando as portas mais cedo, tumultos, saques, depredações e medo. Tudo isso foi visto nas ruas de todo o Brasil naquele inverno – e nas ruas de algumas cidades, em especial o Rio de Janeiro, bem depois disso. Aqui mesmo, em Ribeirão Pires, isso aconteceu, com direito a uma tentativa de invasão ao Paço e várias lojas depredadas no Centro, como o Shopping Duaik e a Ótica Estância, por exemplo. Em Mauá, cujo shopping ganhou repercussão nacional por conta de uma liminar que impedia o ingresso de menores desacompanhados no último sábado, a Avenida Barão de Mauá virou uma verdadeira praça de guerra com cenas nunca antes vistas, como pessoas saqueando lojas e carregando o que pudessem para suas casas. Isso posto, qual a diferença?

Grosso modo, ambos poderiam ser classificados como badernas. Isso, fora o fato de que enquanto a origem de um está na classe média/alta e a de outro nas classes mais pobres da sociedade, já poderia explicar muita coisa. Entretanto, é preciso ir a fundo, olhar além das letras do chamado “funk ostentação” que prega o consumismo como maior valor social e mergulhar no âmago da questão: qual o cuidado que temos com nossos jovens? O que nós, enquanto sociedade, oferecemos a eles? Claro que muitos podem dizer (mesmo sem nunca ter frequentado) que entidades como Sesc, Senac e as próprias prefeituras oferecem opção de lazer e cultura gratuitamente, o que não deixa de ser verdade, mas será que isso é o suficiente?

Vamos olhar ao redor. Se deixarmos essa reflexão mais local, podemos chegar à conclusão de que de novembro de 2012 para cá, quando constatamos que as praças da cidade estão abandonadas, nada mudou. E relembrando o ano de 1987, na música “Comida”, os Titãs cantavam que a população também quer diversão, arte e, porque não, mais amor. Não é difícil dizer portanto que o problema não irá se resolver com liminares, filósofos e “sábios” tentando decifrar a mensagem que emana das ruas. A solução está na mudança de postura, uma mudança de filosofia que se inicia escutando mais o que a população e esses jovens têm a dizer, o que não foi feito no ano passado. Resta saber se as elites aceitarão descer do salto.

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