A luta contra o cigarro: difícil, mas não impossível

Na última segunda-feira (29), celebrou-se o Dia Nacional de Combate ao Fumo. Diversas ações já foram feitas com o objetivo de frear o consumo de cigarro no Brasil: proibição de peças publicitárias, imagens estampadas nas embalagens falando sobre os malefícios do cigarro, Lei Antifumo no Estado de São Paulo e por aí vai. A medida mais recente prevê aumento na carga tributária dos cigarros, além da fixar preço mínimo de venda do produto no varejo.

"O 0800 da caixa do cigarro não nos levam a lugar algum"

Todas essas iniciativas têm uma justificativa forte. Estima-se que 35 milhões de pessoas morram por ano no mundo por doenças decorrentes do tabagismo. Entre as mortes por câncer de pulmão, 70% estão relacionadas ao hábito de fumar, assim como 42% dos óbitos por doenças respiratórias crônicas. No Brasil, o tabagismo está relacionado a aproximadamente 200 mil mortes anuais. “Medidas como essa (aumento da taxação dos cigarros) reforçam a liderança do nosso país no enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis”, disse o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante a 30ª Reunião da Comissão Nacional para Implementação da Convenção-Quadro para Controle do Tabaco (Conicq) no Brasil, realizada na semana passada. A Convenção-Quadro é um tratado internacional para controlar o crescimento do tabagismo nos países. Esse controle faz parte do Plano de Ações Estratégicas para Enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), que prevê uma série de iniciativas para reduzir, nos próximos dez anos, em 2% ao ano as mortes prematuras por DCNT. Em relação ao tabagismo, a meta é reduzir a frequência de fumantes em diferentes grupos, incluindo adolescentes e adultos. “A expectativa é chegar a 2022 tendo reduzido a frequência de fumantes de 15% para 9% na população adulta”, afirmou a coordenadora de DCNT no Ministério da Saúde, Deborah Malta, durante a apresentação do Plano aos membros da Conicq.

A frequência de fumantes no país é monitorada por duas ferramentas do Ministério da Saúde: o inquérito Vigitel, realizado anualmente desde 2006 na população maior de 18 anos, que apontou 15% de fumantes em 2010, e a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense), que investiga os indicadores entre os adolescentes. De acordo com a última amostragem da Pense, 6,3% dos estudantes do 9º ano (13 a 15 anos de idade) relataram ter fumado nos 30 dias anteriores à entrevista. “A prevenção da iniciação ao tabagismo entre jovens é, hoje, um dos maiores desafios nacionais a ser enfrentados no âmbito da Política Nacional de Controle do Tabaco”, alerta a secretária executiva da Conicq, Tania Cavalcante.

Leandro Dicieri, 28 anos, é um exemplo de que os jovens estão fumando cada vez mais cedo. Começou aos 15 anos. “Aconteceu em um processo quase automático, fumando apenas cigarros com sabores diferentes. Sem perceber me tornei um fumante de qualquer cigarro. Não dá nem para dizer que foi curiosidade; sempre disse que foi burrice”, conta.

As medidas implantadas pelo governo surtiram efeito, pelo menos com o jovem. “O governo, há pouco tempo, aumentou o imposto sobre o tabaco em 40%. Minha família toda fuma e o valor do prejuízo chegava a quase R$800,00 por mês. Está tão difícil ganhar dinheiro e eu queimando ele? Decidi parar”.

Essa não é a primeira tentativa de Leandro. “Já havia tentado parar de fumar uma vez por conta própria e o resultado foi que, em 12 horas, meu corpo estava debilitado devido à falta de nicotina, como se eu não tivesse me alimentado. Percebi, então, que o certo seria realizar o processo com algum tipo de auxílio e neste caso, veio em forma dos famosos adesivos e pastilhas. O resultado foi imediato: no momento que apliquei o adesivo, a necessidade fisiológica de fumar sumiu literalmente, restaram os hábitos, o cigarro automático como conhecemos, aqueles que acendemos sem nenhuma vontade. Este eu substitui por outros hábitos mais saudáveis, como segurar uma garrafa de água enquanto trabalhava – antes eu segurava o cigarro que se queimava inteiro sem eu fumar”, lembra.

Leandro ainda está em tratamento contra o vício do cigarro, mas as mudanças já são muitas. “O olfato ficou incrivelmente sensível. Comecei a sentir o cheiro nas pessoas e nos lugares que frequento e pensava comigo: ‘caramba, sério que eu cheirava assim também? ’. Ao atender meus clientes, eu interrompia o meu trabalho e saia do local para fumar, voltava com o cheiro certamente impregnado em mim, mas não sentia, me peguei pensando como era desagradável aquele cheiro. E o bolso, este mudou e agora sobra algum dinheiro para pequenas regalias as quais me ‘presenteio’ por ter parado de fumar. Ainda é cedo para falar qualquer outra coisa, mas só tenho a ganhar daqui para frente”.

O processo realmente é árduo, mas Leandro frisa que é possível deixar o vício, mesmo que não se tenha êxito na primeira tentativa. “Se não conseguir da primeira vez, não desista, nem se recrimine, tudo tem limite e romper nossos limites pode ser mais prejudicial do que qualquer outra coisa. A pastilha tem gosto ruim, o adesivo coça, mas este ligeiro incômodo é pequeno perto do quanto um fumante incomoda quem não fuma. Se tiver condições financeiras, coloque em um ‘cofre do ex-fumante’ exatamente o valor que você gastaria por dia fumando. Coloque o dinheiro dentro deste cofre enquanto estiver sem fumar: o dia que conseguir abra! Pronto, você foi premiado”.

Em Ribeirão Pires, a Prefeitura oferece, por meio do Centro de Apoio Pscicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD), serviço gratuito de auxílio e orientação às pessoas que desejam parar de fumar. Se necessário, a pessoa é encaminhada para tratamento nos hospitais de referência. Interessados podem obter mais informações na sede do (CAPS AD), localizado na Rua Domingos Benzenuto, nº 12, Centro.

As medidas tomadas pelo Poder Público no Combate ao Fumo mostraram que causam impacto, mas Leandro, que está na batalha, acha que os governos podem fazer muito mais. “Nosso governo insiste em dizer que o alto custo de um fumante doente é a causa do constante aumento de impostos sobre a indústria do cigarro. Por que eles não investem para a pessoa não fumar? O 0800 da caixa do cigarro não nos levam a lugar algum. Cobrem impostos, não permita fumantes em diversos locais, mais ajudem as pessoas que querem parar de fumar com mais garra”.

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