A espionagem e o medo do Tio Sam

A polêmica das últimas semanas a respeito da espionagem dos Estados Unidos no Brasil, em especial a invasão na caixa postal particular da presidente Dilma Rousseff, ganhou mais um capítulo na última semana, com uma polêmica reportagem feita pelo jornalista Carlos Alberto Montagner para o Miami Herald de nome “Why we spy on Brazil”, ou “Porque espionamos o Brasil”, em português.

Ele entrevistou um ex-embaixador norte-americano que, sem papas na língua (e também por ter sua identidade preservada) declarou que isso aconteceu pelo simples fato do Brasil não ser considerado, na ótica dos EUA, uma nação amiga. Mais exatamente: “Da perspectiva de Washington, o governo brasileiro não é exatamente amigo. Por definição e história, o Brasil é uma nação amiga que ficou ao nosso lado na Segunda Guerra Mundial e na Guerra da Coreia, mas o governo atual não o é”. Citando o Foro de São Paulo (encontro entre dirigentes da América Latina, cujo último encontro foi no Paraguai há alguns dias), ele disse que entre “os amigos de Luis Inácio Lula da Silva, de Dilma Rousseff e do Partido dos Trabalhadores estão inimigos dos Estados Unidos, como a Venezuela Chavista, primeiramente com (Hugo) Chávez e agora com (Nicolás) Maduro, Cuba, de Raúl Castro, a Bolívia, de Evo Morales, a Líbia dos tempos de Gadhafi e a Síria de Bashar Assad”.

Indo além, a fonte de Montagner cita o alinhamento do Brasil com Russia e China “em quase todos os conflitos” e também o fato de o alinhamento político do país e do (BRICS, grupo formado por Brasil, Russia, India, China e África do Sul) ser “oposto ao da Casa Branca”. Ele também cita o fato de o Brasil, durante o governo Lula, ter levado investidores a Cuba, “fortalecendo a ditadura” e ajudando em obras, como o super-porto de Mariel, que teve custo estimado de US$ 1 bilhão – algo inimaginável nos tempos do bloqueio comercial imposto pelos Estados Unidos à ilha outrora comandada por Fidel Castro.

Após citar nomes como José Dirceu, que teria alterado face e identidade em Cuba para fugir da ditadura (que, diga-se de passagem, era apoiada pelos EUA), o ministro das relações exteriores Marco Aurélio Garcia (um “anti-ianque”, segundo a fonte) e também problemas históricos do Brasil como corrupção, tráfico de drogas por nossas fronteiras e o que ele classificou como “concorrência desleal das indústrias brasileiras em relação às americanas, com disputas comerciais e mediações (na Organização Mundial do Comércio), ele deu indícios da posição da “Terra do Tio Sam” em relação a um pleito diplomático do país: o governo Obama não apoiará uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU: “já temos Russia e China como adversários. Não precisamos de um terceiro”. Sobre a espionagem, a notícia é pior ainda: “continuaremos a fazê-lo. É nossa responsabilidade para a sociedade norte-americana”.

Trocando em miúdos, estamos sendo espionados pois a inteligência norte-americana enxerga riscos na posição política do Brasil, em especial no expansionismo e na aproximação com nações menores que o Itamaraty vem praticando desde o governo Lula. Isso posto, somos espionados por sermos temidos. Se isso é bom ou não, só o tempo dirá. Até, como disse Montagner, “Doña Dilma deveria mudar seu e-mail com certa frequência”…

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