A bolha vai estourar…

Destaque: a população está no limiar de perder seu poder de consumo

 

Não se discute que o custo de vida da população está cada dia mais alto. As provas estão à mostra para quem quiser ver na forma dos ovos de chocolate, as iguarias mais requisitadas nesta época de Páscoa e que ano após ano batem recordes de custo.

Em 2002, por exemplo, um ovo médio, de 250g, custava cerca de R$ 6. Dez anos depois, a lógica diria que ele deveria custar no máximo o dobro do preço, já que o IPCA do período esteve em cerca de 100%. Mas, o que vemos por aí é que, além do peso ser menor, girando em torno de 230g, o ovo custa em média R$ 22.

Acha absurdo? No mesmo ano, a gasolina custava em média 1,71 por litro. Hoje, está a 2,89, alta de quase 60%, mais baixa é verdade, mas que ficou neste patamar apenas e tão somente por obra e graça da “mão pesada do Estado”, que segurou os preços – ainda que com viés político – para amansar o faminto dragão da inflação.

Falando em Governo, o grande empresariado tem ensaiado como um mantra o discurso de que todo e qualquer aumento de preços (ou reajuste, para usar um eufemismo) é culpa “dos encargos trabalhistas e da elevada carga de impostos” a que são submetidos, o que é uma meia-verdade, já que boa parte delas tem batido recordes de lucros e de remessas para suas matrizes no exterior, uma prova de que a situação não é tão ruim assim. A regra do maior lucro pelo menor custo, ainda que este seja o do trabalhador que irá consumir seus produtos, é a que vale.

O brasileiro tem mais poder de consumo que há dez anos, mas faz uso excessivo do crédito, com a errada cultura de parcelar até o limite do bolso, municiado pelo formato “sem juros” no cartão de crédito. O entre aspas se justifica porque, como todos bem sabem, não existe almoço grátis. Logo, os juros estão muito bem embutidos no preço, já que os lojistas precisam antecipar seus recebíveis e pagam (altas) taxas para isso. Em uma perversa lógica financeira, quem paga à vista e sem desconto acaba por bancar os juros de quem parcela e por acaso atrase (ou fique inadimplente) no pagamento. Como resultado, temos preços finais elevados e aumento no nível de endividamento das famílias, que recorrem a novos créditos para quitar velhas dívidas e vão diminuindo cada vez mais o seu poder compra ao girar a perversa roda da inflação. Isso, em um cenário mais amplo, é o ensaio da chamada “bolha econômica”.

Em fevereiro, segundo o Banco Central, a inadimplência entre as famílias chegou a 7,7%, um número alto que pode também ser justificado pelas extorsivas taxas de juros, que superam os 200% ao ano em alguns cartões de crédito, os mesmos do parcelamento “grátis”. Endividada ao extremo, a pessoa acaba por deixar de lado obrigações “menos importantes” e engrossa a lista de devedores. Esse processo se repete e acaba por “contaminar” as famílias que, ao perder poder de compra, não consomem e travam a roda da economia, engrossando a tal bolha que, ao estourar, pode levar o Brasil à bancarrota.

Resumindo a ópera, a população está no limiar de perder seu poder de consumo, o que faria o país parar com a “festa monetária”. Hoje, o custo de vida subir em nível mais elevado que a inflação e a renda familiar é uma mera reclamação. Amanhã, pode ser uma triste constatação. É preciso uma ação conjunta entre Governo, empresariado e população para evitar o pior – antes que seja tarde demais.

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